OPINIÃO: As potencialidades de São Domingos


Clemente Garcia

Clemente Garcia

O municipalismo foi uma aposta ganha em Cabo Verde. Entretanto, queria destacar, hoje, o Município de São Domingos que, salvo melhor opinião, ocupa posição geoestratégica no contexto de Santiago. Muito próxima da Cidade da Praia (Capital da Ilha e do País), e muito próxima de Ribeira Grande de Santiago (Património da Humanidade) interliga aos demais Municípios de Santiago e tem uma apreciável receptividade para o turismo de natureza e o segmento praia e sol. Não obstante a pobreza que ainda se depara no Concelho, todavia quem dá uma saltada no interior da Cidade, fica surpreendido com a afectividade que nos amarra e seduz, e isso deve ser motivo de orgulho! É a morabeza, a sua hospitalidade, o convívio, sentimento intrínseco desse povo. E essa amorabilidade traduz nos modos ternos, na sua dedicação, na afabilidade da sua gente. Esta ambiência é, sem dúvida, o nosso cartão postal! Temos que saber tirar proveito disso.

Hodiernamente, competem às cidades, as regiões e os territórios, identificar primeiro as suas vantagens competitivas. Na nossa perspectiva, a estratégia passa pela selecção e potencialização de um conjunto de atributos específicos de cada território, cujo reconhecimento permite definir as vantagens competitivas sustentáveis. Assim, é fundamental que a acção municipal esteja consciente que, paralelamente à afirmação da Cidade enquanto nó de redes de inovação, a promoção das vantagens competitivas envolve também factores específicos de um determinado local, essencialmente os não transferíveis para outro local, como a cultura, a identidade, o património, o meio ambiente…. Numa perspectiva de especialização na diferenciação. Mais: é fundamental ter como princípio que a modernidade da nossa Cidade deverá ser constituída no respeito pela sua identidade histórica. Ora, o património é, em muitos Municípios, recorrentemente mobilizado para sustentar projectos de reestruturação económica e projecção cultural, e para a construção de um espaço público capaz de potenciar novas experiências, sociabilidades, e de apelar à memória colectiva, factores de grande motivação turística. Será que isto está a acontecer no nosso Município?

Quem não tem audácia e disciplina pode alimentar grandes sonhos, mas eles serão enterrados no solo da sua timidez. Estará sempre em desvantagem competitiva. Uma empresa pode ter máquinas, tecnologias… mas se não tiver homens criativos, motivados, que saibam prevenir erros, trabalhar em equipa e pensar a longo prazo, ela poderá sucumbir. É importante reter, de modo conclusivo, que São Domingos tem um enorme potencial que urge valorizar e salvaguardar. Folgo em ver que os requisitos que considero imprescindíveis a uma Cidade competitiva e sustentável estão ao dispor de São Domingos: riqueza patrimonial, cultura territorial e identitária. Se for levado isso tudo em consideração, poderemos elevar a força, a atractividade e a competitividade da nossa Cidade. A título de exemplo, vejam o turismo de natureza – Rui Vaz. Um autêntico pulmão verde sobretudo nesta época e um microclima de fazer inveja! Um grande estimulante à reflexão e não só; ali, pode-se desfrutar de um panorama deslumbrante antes do pôr-do-sol, dando aos olhos doridos do calor a sensação de repouso. E o segmento praia e sol – Praia Baixo, meu torrão natal e onde fiz homem, à espera ainda de um click! No passado, após lauta refeição, onde não faltara a cachupa guisada e um bom caldo de peixe, apetecia deambular para a rua e ouvir uma boa conversa e receber a brisa fresquinha que tornava a tarde, já de si amena, mais aprazível. Recordam-se, rapazes? Como o tempo passa! Muito de nós, viviam um período de curiosidade e alguns mesmo de autêntica inquietação. Ai tempo! Volte! Evoco-os com esta saudade que o tempo sublima e nos enche a vida de gosto saboroso. Temos que mudar o chip e sermos mais pró-activos! Já agora, um outro segmento pouco falado em Cabo Verde – o religioso, designadamente, Alcatrazes em Baía de Nossa Senhora da Luz.

A este propósito, comemorou-se, no dia 8 de Setembro, mais um aniversário da nossa Santa Padroeira – Nossa Senhora da Luz, evento de grande significado histórico. A efeméride merece alguma reminiscência, já que faz parte da nossa história enquanto Ilha/País. Assim, convém realçar que Baía de Nossa Senhora da Luz (aglomerado populacional e porto natural) associa valências ambientais e valências históricas muito relevantes. Recorde-se que na primeira Ilha a ser povoada – Santiago, foram instituídas duas Capitanias: a do Sul, com sede na Ribeira Grande, e a do Norte, com a sede em Alcatrazes. Ademais, as condições particulares desse local asseguram a produção espontânea de um bivalve, a conchinha, com elevado interesse gastronómico e valor comercial incalculável. Mais: nesta época do ano, com a queda da chuva pode-se inclusive comer camarão! Tem havido promoção?! Por que não fomentar esses recursos?

A era actual exige um esforço complexo, requerendo uma capacidade institucional elevada no fortalecimento e dinamização de redes territoriais, de apelo à cidadania, à interactividade e à cooperação entre agentes em prol de uma orientação e de um objectivo comum. Neste sentido, para que o turismo possa constituir-se como factor estratégico, será crucial a implementação de sinergias entre as entidades públicas e privadas, para que tenhamos o mais urgente possível, por exemplo, a asfaltagem da estrada Variante/Praia Baixo e melhorar a via São Domingos/Rui Vaz, ingredientes imprescindíveis para alavancar o turismo no Concelho.

Efectivamente, é minha firme convicção que em Santiago não se elogia com facilidade. Defeito? Talvez. Mas tenho para mim que, nessa almejada Cidade metropolitana, não temos um vulto cultural da dimensão do nosso malogrado Ano Nobo. Desde logo, queria chamar a atenção das autoridades e não só, no sentido de perpetuar o nosso expoente máximo da cultura. Um homem que cantou basicamente todas as localidades do Concelho, merece outra projecção. Estarei enganado? Ouso afirmar que na sua obra temos a alma são dominguense. E como dizia alguém, “isto dá um grande encanto à sua obra”, onde o pensamento se veste de flores como a terra. Nota-se, pois, uma identificação profunda e apaixonada com a sua terra que vai marcar toda a sua obra.

Ora bem, é sabido que o ser humano não é eterno, e está consciente da sua efemeridade. Muito embora não seja um esteta, diria que o ser humano ao materializar as suas impressões faz da arte um meio de se perpetuar, coexistindo com as gerações futuras. Portanto, pela arte, o homem granjeia uma espécie de continuidade. Ela é uma actividade de um ser que aspira a eternizar-se, eternizando os momentos em que decorre o seu existir. Por esta razão, ele deixou “viveiros” e está a dar frutos! Refiro-me concretamente a Pascoal, Dilo, Kim de Nanda, Africano, Nonó, Fany… só para citar alguns, porquanto a lista é extensa. Estes rapazes orgulhavam-se da sua novel Academia, não à moda Platónica. Academia Cultivar. Academia sem sede, sem elogio mútuo, sem academismos! No entretanto, é de elementar justiça também fazer-se referência a uma outra figura que muitas vezes passa despercebida para os incautos, mas um exímio instrumentista, quiçá, um dos melhores de Cabo Verde, refiro-me concretamente a Manel de Candinho. Falemos mais dos nossos artistas! O Concelho ganha com isso. Temos potencialidades!

Conteudo publicado pelo Expresso das Ilhas

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